Entrevista: Eliane Brum

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Eliane Brum é jornalista, escritora e documentarista. Nasceu na cidade de Ijuí, no Rio Grande do Sul. Como repórter, trabalhou no jornal Zero Hora, de Porto Alegre e na Revista Época. Desde 2010, autua como freelancer. Hoje, escreve artigos para os jornais El País e The Guardian. Publicou seis livros – cinco de não ficção e um romance -, além de participar de coletâneas de crônicas, contos e ensaios. Na quinta-feira (1), às 16h, a jornalista conversa com o nosso curador, Schneider Carpeggiani, sobre como podemos pensar o jornalismo em 2016. Confira um teaser do painel nesta breve entrevista:

 

1. Como você analisa a crise que atinge a estrutura na qual está posto o jornalismo contemporâneo?

Acredito profundamente na importância do jornalismo. Mas é preciso lembrar que o que faz o jornalismo diferente de todas as outras narrativas é a reportagem. E reportagem se faz com investigação exaustiva, com checagem rigorosa, com precisão quase paranoica. É algo muito trabalhoso, em geral caro. A crise – ou as crises – vividas pelo Brasil nos últimos anos mostraram como a reportagem é fundamental para uma democracia. Infelizmente, isso ficou evidente mais pela falta de reportagem do que pela sua presença. A imprensa que é adjetivada como “tradicional”, por uma série de fatores, hoje faz pouca reportagem. E a imprensa que se adjetiva como “independente” é muito pequena para cobrir essa lacuna. O resultado é que, num momento tão fascinante da história humana, vários Brasis, vários mundos não estão sendo documentados pela reportagem. E a tristeza é que apenas uma minoria parece perceber a enormidade dessa falta. Há tanto barulho nas redes sociais, tanta bobagem ou mesmo falsificação travestida de informação, que uma parte da população se ilude que está sendo bem informada. Não está. Nesta mesma linha, cada vez que uma matéria de jornal fica mais parecida com um post no Facebook do que com uma reportagem, todos perdemos, e não só a imprensa. Infelizmente, parece que a maioria ainda não entendeu o buraco que a falta de jornalismo, a falta de reportagem, representa na vida coletiva, na vida de cada um. A gente precisa acordar e se juntar às pessoas que estão pensando com seriedade sobre como fazer jornalismo que mereça esse nome neste momento histórico. A reportagem, como documentação do hoje, da história em movimento, é insubstituível. E sua falta, irreparável.

2. De que maneira você avalia, hoje, a relação mídia de massa versus mídia independente/redes sociais?

Não acredito no “versus”. Como repórter, meu percurso é sempre o de duvidar das generalizações. Acho que as coisas são mais complexas. No que se refere ao jornalismo, há bons espaços e bons profissionais no que se chama “mídia de massa”. Bem menos do que deveria, mas existem. Caco Barcellos e o Profissão Repórter, por exemplo, são exemplos de um excelente repórter fazendo um programa importante, tanto por fazer reportagem como por formar repórteres, algo hoje cada vez mais raro. E há gente se apresentando como “mídia independente”, mas o que faz nem passa perto do jornalismo. Tem que olhar para quem está de fato fazendo reportagem. Há ótimos exemplos tanto na “mídia tradicional” como na “mídia independente”. Infelizmente, ótimos mas poucos. Acho que é preciso ver onde estão as oposições de fato. Este cipoal também precisa de reportagem para ser destrinchado.

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