Chico Ludermir lança livro com narrativas sobre mulheres trans

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O jornalista é o convidado de quinta (1/12) da Semana do Livro de Pernambuco

Publicado em 01/12/2016, às 07h16 – JC

 

Diogo Guedes

Para o jornalista e fotógrafo Chico Ludermir, poucas coisas são tão transformadoras como os encontros, especialmente os que permitem conhecer as histórias dos outros. Suas obras – como Senhoras do Coque e Caderno de Narrativas da Cultura Pernambucana – partem sempre do ouvir, de uma escuta genuína que tenta dar conta de sentimentos, passado, sonhos e dores sem se utilizar de atalhos de preconceitos ou generalizações. É o que é único e, justamente por isso, traz o simbolismo da complexidade, que o interessa. O autor é um dos convidados de quinta (1/12), às 19h, da programação da Semana do Livro de Pernambuco.

Chico lança seu novo livro: A História Incompleta de Brenda e de Outras Mulheres (Confraria do Vento). O dia ainda conta com uma conversa com a escritora carioca Elvira Vigna. A outra atração, a jornalista gaúcha Eliane Brum, cancelou sua vinda ao Recife por motivos de saúde.

Confira a entrevista com Chico Ludermir:

JORNAL DO COMMERCIO – Chico, o livro nasceu de uma pesquisa iniciada em 2013. Quando começou, esperava encontrar tantas experiências únicas e mergulhar com tanta profundidade na vida de mulheres trans?
CHICO LUDERMIR –
Acredito que os encontros com as histórias das pessoas são o que há de mais transformador. É por isso mesmo que, não pela primeira vez, aposto nesse formato de narrativas de si. Por mais que o livro seja muito de literatura, pela sua forma, ele é essencialmente um livro de perfis que partem de uma escuta atenta, ativa e entregue. Essa escuta permite enxergar ao mesmo tempo aquilo que é único e o que é universal. Nesse caso, existe também aquilo que é coletivo, no sentido de que o que une as 11 narrativas são a identidade de gênero dessas pessoas. Na minha experiência como escutador sempre tento estar totalmente disponível à outra para poder contá-la da forma o mais humana e sensível possível. Entrar em contatos com as meninas foi um privilégio revolucionário que tento compartilhar com os leitores para contribuir com as revisões necessárias de cada um em um momento em que se acirram as intolerâncias e no Pais que mais mata travestis e transexuais do mundo.

JC – Você ouviu, fotografou e transformou em literatura a vida delas. O quando há de negociação entre fatos, memórias e liberdades de quem escreve?
CHICO –
Acima de tudo, acredito que o próprio ato de narrar-se e rememorar-se já é por si uma recriação de si. Quando elas elencam os fatos e me contam de suas histórias, o processo de imaginação, fabulação criativa já está operando. Não acredito em verdades absolutas, mas em versões. Nesse caso, fica claro que estamos tentando deslocar os protagonismos. Quando e quantos livros têm como tema central as versões das trans? Quanto tempo a literatura ignorou uma parcela da população negando a ela o direito de ser representada de qualquer forma – ou relegando-as aos espaços da violência e morte? Onde estão essas histórias? Elas, obviamente sofreram um processo histórico de silenciamento e apagamento que eu, mesmo cheio de falhas, tento não ser cúmplice. Em relação à minha escrita o que eu tentei fazer foi ser totalmente fiel às subjetividades que me foram compartilhadas – o que não significa ser fiel aos fatos, datas e cronologias. O livro tem um papel prioritário que é de compartilhar outras narrativas e a partir de outros corpos e de outros relatos. Tem como desejo a transformação daquela que lê, daquela que fala e estou certo que é possível, justamente por causa da transformação de mim.

JC – Gosto muito de uma expressão tua que tem na nota do autor: a vocação para resistência (tanto sua como dessas mulheres). Acredita que escrita, a narrativa e a representação podem ser um ponto chave na luta pelos direitos trans e na resistência?
CHICO –
Certamente. O livro parte desse desejo e caminha até agora firme nessa convicção. A literatura, assim como todas as artes e mais largamente todas as nossas ações no mundo são carregadas de escolhas. Podemos reforçar estigmas, preconceitos; podemos perpetuar padrões de representação reproduzindo formas e assuntos, mantendo os silenciamentos e exclusões. A literatura dita neutra escolheu muito bem e historicamente quem ela priorizava, quem ela tornava herói, quem ela esquecia e quem ela ridicularizava. O livro é uma tentativa de revisão disso, a partir dos meus limites e dos limites do que é um livro. A representação por sua vez é talvez a forma mais eficaz de construção de novos mundos. É a partir dela que se mudam imaginários que têm conseqüências reais e concretas nas vidas das pessoas.

JC – O Brasil é o país que mais mata travestis e mulheres trans no mundo. A violência – simbólica e física – da nossa sociedade com as pessoas trans aparece várias vezes nas histórias do livro. Como foi ouvir e escrever sobre isso sem perder o tom – sem banalizar ou espetacularizar?
CHICO –
Ouvir esse relatos é tanto doloroso quanto nos causa vergonha. Doloroso porque ouvir relatos de agressão, tortura, negação do amor frente a frente são devastadores. Vergonhoso porque enquanto homem-cis entendo que meu corpo corrobora também com isso. Meu desejo maior é apresentar-me como aliado e, a cada momento, rever as minhas atitudes aprendendo com experiências de superação e sabedoria revolucionárias dessas mulheres, que aprenderam na marra a resistir. A preocupação de evitar o espetáculo foi uma companhia constante. Manter o afeto e o desejo de mudança me pareceram o antídoto essencial. No entanto, o que surgia a partir das histórias que elas me contavam muitas vezes caía em questões relacionadas ao preconceito e a intolerância, muitas vezes violência física. Escancará-la sem objetificar as meninas me pareceu uma estratégia para que todo mundo que entre em contato com esssas narrativas se impresione ao ponto de nunca cometer, tampouco ser cúmplice ou conivente de nenhuma forma com os discursos de ódio lançados a essas pessoas.

JC – Ao mesmo tempo, o livro tem um papel importantíssimo: de mostrar a individualidade de cada uma das mulheres, não transformá-las apenas num pretexto para falar do coletivo. Foi um cuidado seu? Acha que isso empresta mais força ao que é dito?
CHICO – Quando comecei a buscar as entrevistas já tinha decidido: não estava atrás das histórias mais fabulosas, do diverso ou do extraordinário. Ainda que eles tenham aparecido espontaneamente, o que me interessava era a banalidade o ordinário. A vida cotidiana que se vive e que se conta. O essencialmente humano e o único que é aquilo que nos aproxima. Claro que existia uma particularidade de partida: esses humanos, muitas vezes, pelo preconceito, não são considerados como tal.
Talvez aí nessa individualidade more a potência maior do livro. É nela que aposto como possibilidade de permear uma empatia necessária. É nela também que aposto para permitir encontros que raramente acontecem.

JC – Talvez uma das coisas bonitas que a leitura pode proporcionar é ajudar a contemplar o outro (que não é o mesmo que viver o que ele viveu). A História Incompleta de Brenda e de Outras Mulheres busca isso, despertar também a empatia?
CHICO – Sim. Concordo plenamente que não é possível ser o outro. Nunca. Mas, sim, é possível transformar-se a partir do encontro com o outro. Essa palavra, quase banalizada que é “empatia”, ainda me parece muito forte. Como mudar a realidade sem mudar a si mesmo? Como mudar a si mesmo sem olhar para o outro e aprender com ele. Me alegro ao lançar esse livro, que faz parte de uma pesquisa longa de três anos e meio e que já teve alguns outros produtos, como uma série de vídeos e uma exposição na Fundação Joaquim Nabuco, em 2015, porque percebo que, sim, ele tem contribuído para uma relação empática entre mundos que, infelizmente ainda hoje, pouco se encontram. O meu desejo é que esse projeto chegue em escolas – inclusive as ocupadas agora- e que ajude a estabelecer relações empáticas essenciais na redução do preconceito e da intolerância com o diferente.

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